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Ensino: Brasil e Japão em foco

Foto: Ricardo Uehara
Grasiela Cristina Corrêa da Silva, autora da pesquisa

Antônio Carlos Bordin

"Apesar das dificuldades, as escolas brasileiras no Japão estão trabalhando para formar cidadãos competentes. É um trabalho feito com muitas limitações, mas é o melhor possível". A declaração é de Grasiela Cristina Corrêa da Silva, 28, autora de um estudo comparativo entre a educação brasileira dada no Brasil e no Japão, feito como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de pós-graduação em Gestão Educacional pela Universidade Católica de Brasília.

Para comparar o ensino em vigor no Brasil e nas escolas brasileiras no Japão, Grasiela usou como parâmetro a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), que rege a educação brasileira. Ela disse que enviou um questionário para 60 escolas no Japão, mas lamenta ter recebido as respostas de apenas quatro. "O questionário era dissertativo e com 32 perguntas. Talvez não fosse tão simples, pois a pessoa teria que conhecer a LDB", acredita.

Grasiela encontrou nas respostas das escolas, porém, vários itens da LDB que estão sendo respeitados, como é o caso da quantidade e distribuição de horas/aula; o calendário escolar adaptado à realidade local, currículos do ensino fundamental e médio de acordo com a base nacional e a inclusão do ensino de língua estrangeira, no caso, o japonês e cultura japonesa. Além disso, as escolas inseriram no currículo as disciplinas de filosofia e sociologia no ensino médio e de arte na educação infantil.

As escolas também têm o Projeto Político Pedagógico (PPP). O problema é que a sua elaboração não tem tido a participação de professores, mas apenas diretores e coordenadores pedagógicos. "O PPP contém os princípios e objetivos da escola e rege os conteúdos a serem ensinados aos alunos, visando o seu desenvolvimento. E o professor é quem vai lidar com as crianças", explica a professora. "Este é um documento vivo, que não pode ficar na gaveta. Deve ser revisto anualmente, porque as crianças mudam e a realidade também", sugere.

Mas as escolas criaram várias saídas para enfrentar as dificuldades que existem no Japão e talvez dificilmente se repetiriam no Brasil. Uma delas são as salas seriadas. "A LDB prevê que em uma sala haja apenas alunos da mesma série. Mas no Japão, além da falta de espaço, o número reduzido de alunos faz com que a escola reúna na mesma classe crianças de três ou quatro séries. Às vezes há apenas um aluno de uma série e não compensa manter uma classe só para ele", citou. Grasiela reconhece que este não é o modelo ideal, mas não há outra forma de enfrentar o problema. "A solução está na capacidade do professor lidar com diferentes níveis, sem que as lições dadas a uma série interfiram nas demais", explica.

Outro aspecto criado pelas escolas, que foge da LDB, é o funcionamento de segunda-feira a sábado, muitas vezes chegando a 12h diárias. "Muitos pais trabalham em indústrias de alimentos e não têm folga ou trabalham muito. Então a escola se adapta à carta horária de trabalho dos pais", relata.

Dificuldades

As escolas brasileiras no Japão também são mais flexíveis quanto às transferências de alunos. Enquanto que no Brasil esse recurso é permitido até o terceiro bimestre do ano letivo, no Japão pode ser realizado a qualquer momento. "Isso porque muitas crianças podem estar chegando do Brasil ou vindo de escolas japonesas ou ainda porque os pais precisaram mudar de endereço. Não se pode deixá-las fora da escola", assegura Grasiela.

A LDB também pede que os professores cumpram exclusivamente suas funções educativo-pedagógicas, para que tenham tempo de se reciclar. "Mas no Japão não há cursos de reciclagem e as escolas não têm inspetores de aluno ou faxineiros. Então os professores têm que dar aula, limpar a escola, trabalhar como motoristas, servir o almoço, levar o aluno ao médico. A vida do professor no Japão é muito intensa, mas o amadurecimento do profissional é grande", cita.

As maiores dificuldades enfrentadas pelas escolas no Japão para se adequarem à LDB estão na contratação de professores qualificados, como ocorre muito nas áreas de educação física, ensino religioso ou educação especial. "Algumas escolas contam com colaboradores japoneses para atender crianças com necessidades especiais, mas não professores de educação física e nem contam com quadras esportivas, muitas vezes tendo que depender de aluguel de um espaço adequado", explica.

Ela citou ainda que os professores no Japão não consegue ter uma formação continuada, havendo uma carência de seminários, cursos, encontros, como os que são realizados no Brasil. "Também há a falta de material didático adaptado à realidade japonesa".

Também há grande dificuldade no encaminhamento das crianças a psicólogos e fonoaudiólogos. "Há casos de alunos com problemas de fala, mas não há como encaminhá-los a um fonoaudiólogo japonês. E sem que eles recebam algum tratamento, a fala poderá ficar comprometida. Há crianças que não distinguem as letras V e F no início de palavras. Se não tiverem essa distinção, terão problemas para escrever", afirma.

Para Grasiela, apesar das tentativas do Ministério da Educação do Brasil de se aproximar e intervir na realidade das escolas no Japão, ainda há muito o que fazer. "Se não houver uma intervenção do MEC e as escolas não se unirem, as carências permanecerão", alerta.